Dominação masculina revisitada por Bourdieu e Crítica ao texto feita por Mariza Corrêa

Bourdieu
Inicia procurando mostrar que “as mulheres, que foram constituídas como seres dotadas de gênero pelo mundo social, podem contribuir para sua própria dominação” (14).
Questões metodológicas...
Ele afirma que descrever as estruturas objetivas do universo social dos cabilas é ao mesmo tempo descrever as estruturas mentais do observador (homem da tradição cultural neomediterrânea).
Ao estudar mais de perto as práticas rituais e míticas dos cabilas, pode-se descobrir um “sistema de princípios de visão e divisão comum à civilização mediterrânea inteira, sistema que sobrevive até hoje em nossas estruturas mentais” (15).
Desse modo, ele procura explicar como as disposições “falonarcísicas”, claramente verificáveis no caso cabila, haviam sido inscritas nos “corpos dos homens e das mulheres das sociedades ocidentais contemporâneas”.
Sua posição de observador é a de alguém que está montando um quebra-cabeças, usando pistas deixadas pelas pessoas que o construíram. Ele se diz informado pela visão cabila (16).

Interpretação e Ideologias

RICOEUR, Paul. Interpretação e Ideologias. 4. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990.

Ricoeur parte de uma análise rigorosa da vontade humana, procurando atingir uma teoria da interpretação do ser.
Método reflexivo que rompe com o idealismo. Procura esclarecer a existência mediante conceitos – elucidar seu sentido (hermenêutica).
FENOMENOLOGIA – compreender o que descreve para elucidar o sentido [1].
Para atingir o essencial da questão da vontade, Ricoeur coloca entre parênteses os temas religiosos da falta de da transcendência.
Suspende o juízo do pecado original para se permitir o estudo sem preconceitos da falibilidade empírica da vontade humana.
A vontade precisa ser estudada em si mesma e seus componentes essenciais são o projeto, a execução e o consentimento. Faz uma correlação entre o voluntário e o involuntário, pois querer é justamente projetar um mundo, apesar ou contra os obstáculos. É também projetar uma intenção que através do consentimento, converte-se em necessidade sofrida e retomada pelo consentimento.
Em Finitude e Culpabilidade ele não discute mais o problema da realidade do mal, mas o problema de sua possibilidade (falibilidade). A finitude não basta para explicar o mal, mas procura saber que finitude possibilita a inserção do mal na realidade humana. O pathos da miséria é o ponto de partida de uma Filosofia do homem. O homem possui uma intermediaridade, ou seja, opera mediações entre contrários ou correlativos. A fonte da falibilidade consiste em certa “não-coincidência do homem consigo mesmo” – comporta, portanto, uma negatividade.
A filosofia seria então refletir sobre esse caráter patético da miséria, que se revela nos níveis do conhecer, do agir e do sentir [2].

O mal–estar na civilização

FREUD, Sigmund. O mal-estar da civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997

Neste texto Freud começa por tratar de uma questão posta por um amigo que é a do “sentimento oceânico”, uma sensação de eternidade, de algo ilimitado e sem fronteiras. Ele passa a discutir a validade do sentimento religioso (p. 131).
“Não é fácil lidar cientificamente com sentimentos” (p. 132).
Freud diz que com esse sentimento denominado “oceânico” se quer falar sobre o sentimento de um vínculo indissolúvel, de unidade com o mundo externo, mas não acha que se trate de um sentimento de natureza primária, um sentimento imediato.
Existe uma coisa de que podemos estar certos, segundo Freud, é o de nosso eu, nosso ego (p.132). Exteriormente, o ego parece ser claramente delimitado, mas no enamoramento e em alguns estados patológicos a fronteira entre o ego e o mundo externo se torna incerta. Desse modo, o sentimento de nosso próprio ego pode sofrer distúrbios e suas fronteiras não são permanentes.

Uma epistemologia de Georges Canguilhem

MACHADO, Roberto. Ciencia e Saber: a trajetória da arqueologia de Michel Foucault. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1981.

Um trecho do livro que fala sobre Canguilhem.

[...]

A história epistemológica de Georges Canguilhem


A filosofia de Canguilhem é uma epistemologia, no sentido de uma consciência crítica dos métodos atuais de saber adequado a seu objeto. É também “uma investigação sobre os procedimentos de produção do conhecimento científico; é uma elucidação das démarches características da ciência; é uma avaliação da racionalidade científica; em suma, é uma análise da cientificidade” <17>.
Ele defende uma epistemologia regional, i.é, “não aceita ou postula a existência de critérios universais de racionalidade ou de cientificidade; procura explicitar os fundamentos de um setor particular do saber científico”. Nesse sentido, se assemelha a Bachelard.
Seu projeto de epistemologia se constrói através de uma reflexão histórica sobre as ciências. Tanto em Canguilhem, quanto em Bachelard, a filosofia se caracteriza por ser uma epistemologia histórica e também uma história epistemologia histórica .

REFLEXÕES SOBRE AS CAUSAS DA LIBERDADE E DA OPRESSÃO SOCIAL

Este não é um fichamento. É o texto original, pois o livro já está esgotado, de Simone Weil, “Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão”, in A Condição Operária e outros estudos sobre a opressão. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, pp. 235-307.

[...]
“No que diz respeito ás coisas humanas, não rir, não chorar, não se indignar, mas compreender”. - ESPINOSA
“0 ser dotado de razão pode fazer de qualquer obstáculo uma matéria de seu trabalho e tirar partido dele.” - MARCO AURËLIO

O período atual é daqueles em que tudo o que normalmente parece constituir uma razão de viver, se desvanece; em que devemos, sob pena de afundarmos no desnorteamento ou na inconsciência, questionar tudo. O triunfo dos movimentos autoritários e nacionalistas arruína um pouco por toda a parte a esperança que a gente honesta tinha depositado na democracia e no pacifismo, isso é só uma parte do mal que nos acabrunha; ele é bem mais profundo e extenso. Podemos perguntar-nos se existe um canto da vida pública ou privada onde as próprias fontes da atividade e da esperança não estejam envenenadas pelas condições em que vivemos, O trabalho não é mais realizado com a consciência orgulhosa de ser útil, mas com o sentimento humilhante e angustiante de se possuir um privilégio concedido por um favor passageiro da sorte, um privilé-[fim da p.235]gio do qual excluímos vários seres humanos porque o desfrutamos, em resumo: um lugar. Os próprios chefes de empresa perderam aquela crença ingênua num progresso econômico ilimitado que lhes dava a ilusão de terem uma missão. O progresso técnico parece ter ido à falência, porque em vez do bem-estar só trouxe às massas essa miséria física e moral onde as vemos se debater; além disso, as inovações técnicas não entram em mais nenhum lugar, ou quase, a não ser nas indústrias de guerra. Quanto ao progresso científico, não se entende para que serve empilhar ainda mais conhecimentos sobre um acúmulo já tão excessivo, que nem o pensamento dos especialistas pode abarcar; e a experiência mostra que nossos avós se enganaram acreditando na difusão das luzes, já que só podemos divulgar para as massas uma miserável caricatura da cultura científica moderna, caricatura que, em vez de formar o pensamento, as acostuma à credulidade. A própria arte sofre o golpe do desnorteamento geral, que, em parte, a priva de seu público, o que detém a inspiração. Finalmente a vida familiar é toda ansiedade desde o momento em que a sociedade se fechou para os jovens. Essa geração para a qual a espera febril do futuro é a vida integral, vegeta no mundo inteiro com a consciência de não ter nenhum futuro. Mal este que, de mais a mais, se é mais agudo para os jovens, é comum para toda a humanidade de hoje. Vivemos uma época privada de futuro. A espera do que virá não é mais esperança, mas angustia.

Civilisation x Kultur - Introdução de O Processo Civilizador de Elias

• França – burgueses assumiram costumes e tradições aristocráticos.
• Burguesia francesa e classes médias foram absorvidas pelo círculo da corte.
• Alemãs de classe média identificaram os costumes corteses franceses como o próprio caráter nacional francês e julgaram esse comportamento como de segunda classe e incompatível com sua própria “estrutura afetiva”. (p.52)
• Paradoxo político – França, funcionalismo público era ocupado pelos burgueses, isso ajudou a quebrar a força da nobreza neste país. Na Alemanha eram ocupados por aristocratas. Aqui, a burguesia não tinha um poder econômico tão forte quanto na França e havia uma maior separação entre classe média e aristocracia de corte. (p.53)
• Conceito francês de Civilisation – opiniões cultas a respeito do que seria civilização “suavização de maneiras, urbanidade, polidez e difusão do conhecimento de tal modo que inclua o decoro no lugar de leis detalhadas” [semelhança com o que se dizia na Alemanha com os costumes da corte]. Vinculação do homem civilizado ao homem da corte. (p.54)
• “Polidez” e “civilidade” teriam praticamente a mesma função da noção de civilização: “expressar a auto imagem da classe alta européia em comparação com outros, que seus membros consideravam mais simples ou mais primitivos, e ao mesmo tempo caracterizar o tipo específico de comportamento através do qual essa classe se sentia diferente de todos aqueles que julgava mais simples e mais primitivos.” (p.54).
• A crítica dos fisiocratas, porém, da noção francesa de civilização e moderada, não tendo tanta ressonância na ordem dominante dos valores e permanece dentro do contexto do sistema social vigente – é a crítica de um reformador. Os intelectuais da corte francesa desejam melhorar, modificar, adaptar. (p.55)

A sociologia moral de Luc Boltanski

BLIC, Damien de. (2000). La sociologia politique et morale de Luc Boltanski. Toulouse, Raison politique, n. 3, p.149-158.

De Blic (2000) discutindo os trabalhos de Boltanski …

O primeiro objeto mais amplo sobre o qual ele vai sistematicamente por à prova esta preocupação é, classicamente, a sociologia de um grupo social: les cadres (os quadros). Ao se ater a uma sociologia dos quadros, o pesquisador é submetido a uma tensão: como levar em conta esta categoria sem naturalizá-la? Como escapar à tentação de hipostasiar tudo enquanto se mede a pregnância social desta figura: ‘de que ciência autônoma se pode se valer da autoridade para contestar a realidade de um princípio de identidade ao qual os agentes sociais concedem sua fé?” se pergunta Boltanski na introdução de seu trabalho. A questão se dirige então para a história da categoria, como testemunhando o título de seu trabalho (a formação de um grupo social), e deve remontar até os anos 1930, época na qual emergem em certos atores a preocupação de promover um movimento das classes médias destinado a romper tanto com a ordem social binária própria ao capitalismo quanto com as reivindicações do mundo do trabalho. O autor mostra então, como, no pré-guerra, a categoria se inscreveu duravelmente no mundo social se apoiando ao mesmo tempo em dispositivos técnicos (representações estatísticas, sistema de fundos de pensão…) e sobre a colocação de esquemas cognitivos. Resulta de certa exploração histórica que o trabalho de construção da categoria ‘quadros’ pode bem ser definida como um trabalho político do qual se pode seguir o desenvolvimento histórico, ligado a certas mobilizações, e que repousa sobre a ação de atores identificáveis (sindicatos de classes médias, portadores da modernização econômica…). É, a partir de agora, uma sociologia da ação política que se coloca e os quadros mostram como esta ação repousa largamente sobre uma capacidade dos atores para universalisar as propriedades locais.
A freqüência deste terreno vem trazer, ao mesmo tempo, vencer estas distâncias com uma sociologia que não lhe permite considerar as pretensões de justiça dos atores (suas formas de denúncia das injustiças pelas quais eles se consideram vítimas) que ele reencontra, nem da capacidade que eles têm de se abstraírem de seus casos particulares para chegar a formas gerais (das quais a categoria “quadros” é um exemplo). Para compreender estas competências de generalização, se impõe a necessidade de constituir sistematicamente uma sociologia da “forma [fim da p. 150] caso”, forma que se pode definir numa primeira aproximação como uma disputa no curso da qual os protagonistas “se dedicam a um intenso trabalho interpretativo e argumentativo, se opõem a um conflito de argumentação” e onde “cada parte procura mobilizar o maior número de recursos em seu favor”. Repousando sobre a questão dos “casos”, o sociólogo pode, de uma forma privilegiada, examinar as operações de generalização que estão sendo feitas (DE BLIC, 2000).

Do Sofrimento do Mundo

SCHOPENHAUER, Arthur. Do Sofrimento do Mundo. São Paulo: Martin Claret, 2001. 128p.


Para Schopenhauer o sentido para a vida é o sofrimento gerado pelas necessidades essenciais da vida e a infelicidade é a regra, mesmo que a infelicidade individual pareça uma exceção.
O fundamento da negatividade da felicidade está em que não nos damos conta quando as coisas correm satisfatoriamente, quando gozamos de boa saúde etc. No entanto, qualquer contrariedade à nossa vontade é desagradável e/ou causa sofrimento. A dor, e por conseqüência o sofrimento, portanto, é positiva (113).
“o mal é o positivo, é aquilo que em si mesmo se torna sensível; e o bem (por exemplo, toda felicidade e satisfação) constitui o negativo, isto é, vem a ser a supressão do desejo e a eliminação da angústia.”
Assim como para os grupos, a vida dos indivíduos é uma luta constante com a necessidade e o tédio. O homem encontra oposição em toda a parte e vive lutando continuamente (114).
De acordo com Schopenhauer, todos nós precisamos de “uma certa dose de preocupação, de dor, ou necessidade” e “trabalho, aflição, esforço e necessidade constituem a sorte, no curso da vida, da maior parte das pessoas”.
A base sobre a qual a felicidade e a infelicidade se apresentam ao homem é bastante reduzida e envolvem saúde, alimento, proteção do frio e umidade e satisfação sexual (115).

História do Pudor

BOLOGNE, Jean Claude. História do Pudor. Rio de Janeiro: Elfos Ed.; Lisboa, Portugal: Teorema, 1990.

A pudicícia do imperador Maximiliano era tal que ele se recolhia sozinho na sua cadeira furada, “sem se servir de criados de quarto ou de pajens”... Tal era a de Isabel de Castela, que a rainha morreu de uma úlcera que não quis mostrar; houve mesmo que administrar-lhe a extrema-unção debaixo dos lençóis, pois não queria mostrar os pés. E que dizer de Ana de Áustria que, por mais de cem mil francos, mandou destruir quadros “indecentes”? De Luís XLII, que borrou os frescos do seu quarto? De Mazarino, que mutilava as estátuas?
No oposto, que dizer da baronesa de Montreuil-Bellay, que mandava um dos seus vassalos, quando ia a casa dele, levá-la às cavalitas àquele sítio onde ele próprio ia a pé e estender-lhe o musgo que fazia as vezes de papel? Que dizer de um rei que recebia os seus súbditos na sua cadeira higiênica e mandou que, no teatro, os selvagens ~‘trajassem como se estivessem quase nus”? Estes exemplos, todos da mesma época, mostram que, se o pudor existiu sempre, aplicou-se, ao longo dos séculos, a domínios sensivelmente diferentes. Grande era a tentação de escrever essa história...

Mito na mídia

CONTRERA, Malena Segura. O mito na mídia: a presença de conteúdos arcaicos nos meios de comunicação. São Paulo: Annablume, 2000. (Selo Universidade : 45). 113p.

Esse livro, apesar de usar um corpo teórico que me é estranho e muitas vezes para mim advinhatório – como sempre me parecem os discípulos de Edgar Morin –, possui algumas afirmações interessantes sobre a mídia, e são essas que procurarei expor aqui.
Ela destaca a dimensão ritual que a leitura matinal do jornal possui. Afirma também que sendo a mídia uma “estrutura simbólica de poder”, ela nos seduz, mas mais que isso, somos capturados pelos “conteúdos míticos” da comunicação jornalística (53).
Esse caráter mítico se mostra também no ritmo diferenciado que o jornal imprime à realidade da própria informação, quando lança os jornais do domingo no sábado, por exemplo. Além, disso inverte sua própria função primária, a de informar opinativamente os fatos, mas também atualmente tem como conteúdo seus próprios comportamentos (53). E isso se evidencia muito mais nos jornais de sensação que tanto são notícia em suas próprias páginas, mas também nas páginas de jornais concorrentes, principalmente no que se refere aos limites do comportamento ético dos jornalistas e da apresentação de notícias.

A estesia grotesca

SODRÉ, Muniz. “A Estesia Grotesca”. In: O social irradiado: violência urbana, neogrotesco e mídia. São Paulo: Cortez, 1992. pp.89-111.

Forma especial do barroco (ou maneirismo). O estilo grottesco, vindo de grota, gruta, ou ‘pedregoso’ se caracteriza por uma forte dose de naturalismo rústico. O autor parte de uma noção presente no trabalho de Bakhtin, o “realismo grotesco” para chamar a atenção sobre uma característica presente hoje na indústria cultural, não só no Brasil, mas em todo o mundo.
Sodré fala que o que se pode chamar de sociedade de massa aqui no Brasil representa apenas 20% da população economicamente ativa. É a parcela que controla a riqueza privada do Brasil, possuindo um perfil econômico de alta concentração de renda e liquidez. Essa camada se caracteriza também por um perfil cultural centrado na busca de uma identidade civilizada pelos saberes e bens simbólicos vindos do Primeiro Mundo (1992, p.90).

A expressão obrigatória dos sentimentos

Em seu texto “A expressão obrigatória dos sentimentos”, de 1921, M. Mauss estuda os cultos funerários australianos e percebe que, tanto as lágrimas, quanto uma série de expressões orais de sentimentos não são apenas fenômenos psico-fisiológicos, mas também fenômenos sociais, que em vez de serem expressões individuais, são marcados por obrigações por parte dos membros da sociedade (Mauss, 1979, p.147). Nesse espectro, por exemplo, poderiam-se incluir os cultos funerários e o luto.
Esse caráter coletivo é grandemente marcado por cerimônias públicas que possuem regras próprias e fazem parte do ritual da vendetta e da determinação de responsabilidades, pondo em ação sentimentos e emoções construídos coletivamente, o que permite, segundo Mauss (1979, p.149), entrever a própria coletividade em interação.

Mortes em derrapagem

FAUSTO NETO, Antônio. Mortes em derrapagem. Os casos Corona e Cazuza no discurso da comunicação de massa. Rio de Janeiro, Rio Fundo Ed., 1991. 240pág.

Neste livro, Fausto Neto se propõe a estudar dois casos principais sobre o tratamento dado pela mídia à morte decorrente da AIDS de dois artistas brasileiros famosos: Cazuza e Lauro Corona.
A morte é um significante que está permanentemente na mídia “segundo as embalagens próprias das hierarquias editoriais, que tratam de subordinar a morte singular do sujeito, no esquema padrão, à causa mortis do jornal. A conseqüência imediata se constitui no fato de subordinar este acontecimento, por assim dizer, absurdo, recusável, entrópico, (pág. 14) à inteligência dos próprios sistemas de enunciação mediáticos. É nessas circunstâncias que diferentes mortes comparecem, diariamente, nas diferentes páginas de jornais e nos espaços rádio-televisivos para, no interior de cada economia enunciativa, se converterem em objeto do engendramento da noção de realidade. Ricos, pobres, pessoas, indivíduos, “olimpianos” de diferentes matizes, funcionam como espécie de insumos da “economia discursiva” da comunicação, segundo as diferenças que caracterizam os múltiplos sistemas de operação. Cada sujeito é objeto — ao nível do discurso — de processos simbólicos singulares que, neste caso, tornam a particularizar a morte do corpo, é claro, mas de sujeitos sociais diferentes”. (pág. 15)

Sobre as massas

Assim também é a informação em relação às massas. Qualquer que seja seu conteúdo, político, pedagógico, cultural, sempre existe o propósito de filtrar um sentido e mantê-las sob ele. Porém, elas resistem a esse imperativo da comunicação racional. “O que se lhes dá é sentido e elas querem espetáculo. Nenhuma força pôde convertê-las à seriedade dos conteúdos, nem mesmo à seriedade do código. O que se lhes dá são mensagens, elas querem apenas signos, elas idolatram o jogo de signos e de estereótipos, idolatram todos os conteúdos desde que eles se transformem numa seqüência espetacular. O que elas rejeitam é a ‘dialética’ do sentido”, ou em outras palavras, as massas se opõem ao sentido e lhe impõem sua vontade do espetáculo (BAUDRILLARD, 1994, p.15).